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O inimigo de meu inimigo não é meu amigo. Por Juca Kfouri

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Por Juca Kfouri, no Liberta: Como o amigo de meu inimigo não é também meu inimigo, o inimigo de meu inimigo não é, necessariamente, meu amigo.

Mas existem os pensadores binários.

Se eu não gosto do ditador Nicolas Maduro, o binário acha que apoio o tirano Donald Trump.

Se eu saúdo o ministro Alexandre de Moraes pelo papel fundamental e histórico que desempenhou em defesa da democracia, não posso criticá-lo pelo contrato do Banco Master com o escritório de advocacia de sua família.

Se gosto do governo Lula, devo concordar com a mudança feita no ministério dos Esportes, quando trocou a excelente Ana Moser pelo caricato Fufuquinha.

Mesmo que haja consenso internacional sobre a fraude eleitoral na Venezuela para manter o parlapatão Maduro no poder, assim como há sobre a violência inconcebível cometida pelo déspota Trump.

Há até os que, de extrema-direita, no esforço inútil de se distinguir dos nazistas, cometam a falsa equivalência de argumentar que, então, a Alemanha de Adolf Hitler também não poderia ter sido invadida, como se os venezuelanos tivessem começado a Terceira Guerra Mundial.

Ora, quem parece querer começá-la é exatamente o inquilino da Casa Branca.

Nau dos insensatos

O Supremo Tribunal Federal, de fato, nem deveria precisar de código de conduta, mas, diante de tão óbvios conflitos de interesses, não apenas precisa, como urge que o crie.

Apoio incondicional é incompatível com o pensamento crítico, diferentemente do amor sem condições, coisa de que desfrutam nossos filhos e netos.

Paralelismos falsos têm o objetivo de confundir, como o Velho Guerreiro Chacrinha, aquele que não veio para esclarecer.

Ouvir bolsonaristas em defesa dos direitos humanos e a favor de uma anistia, ampla, geral e irrestrita para os golpistas é simplesmente cômico.

Fossem bandeiras verdadeiras de quem sempre pregou que bandido bom é bandido morto, que prisão domiciliar é um absurdo, saidinhas de fim de ano, outro, teríamos, enfim, pelo menos um legado da prisão dos chefetes de 8 de janeiro.

Só que não.

Redundante dizer: fomos pela Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita dos que lutaram contra a ditadura imposta em 1964 e a rejeitamos de cabo a rabo aos que tentaram revivê-la.

Bem sei estar sangrando em saúde ao abusar de tamanhas obviedades, além de repetir o já dito um milhão de vezes.

Na verdade, estou apenas em minha obsessiva campanha por juntar argumentos, entendidos até pelas crianças, para conversar com bolsonaristas que sabem ser a Terra redonda, e convencê-los a abandonar a nau dos insensatos.

Dia desses, uma motorista de aplicativo me disse que era melhor mudarmos de assunto porque o pastor sabia mais do que nós dois.

Perguntei, então, se Jesus amava ou armava.

Ela me olhou, quase súplice, e prometeu que pensaria, porque também não gostava de gente raivosa.
“Só uma última coisa”, falei: “Você acha certo brasileiros irem aos Estados Unidos para pedir punições ao Brasil?”.

Ela respondeu prontamente: “Não, isso é traição”.

Calei-me, satisfeito.

E tomei de volta: “Mas foi o Eduardo, não o Flávio”.

Juro que pensei em capitular, mas aqui é Corinthians: “Pois é, o Flávio disse que quer o Eduardo como ministro das Relações Exteriores”.

“Tá bom, moço (gostei do tratamento), já disse que vou pensar”.

Mais não disse, nem perguntei, chegamos ao destino, e dormi naquela noite com a ilusão de que dá para, ao menos, plantar dúvida nas cabeças aparentemente perdidas pela desinformação.

Em tempo: o Conselho Federal de Medicina, em vez de incomodar o STF para melhorar ainda mais o tratamento dado ao presidiário, deveria instruir Jair Bolsonaro a fazer o que desobedecia nas motociatas: usar capacete para dormir.

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